Edson Luiz Defendi
Apesar dos avanços e agendas sociais e políticas relacionados à questão da deficiência, ainda existe uma carência muito grande de materiais educativos e de orientação que auxiliem profissionais no seu dia a dia de trabalho e atendimento a este público. Alguns temas que se encontram em interface em relação à deficiência ainda são percebidos como tabu, e a sexualidade se insere nesta categoria.
Numa sociedade que ainda reluta em trazer a tona e discutir abertamente questões pertinentes à sexualidade humana, falar do desejo, orientação sexual, erotismo de pessoas com deficiência ainda representa um desafio.
Permanece ainda no imaginário social a imagem que a pessoa com deficiência necessita de cuidados e que por ter um corpo diferente, o mesmo não é compatível com os padrões sociais de beleza e de atração sexual.
E quando falamos sobre a sexualidade do jovem com deficiência visual ?
Quais os pontos relevantes a serem discutidos para além das corriqueiras questões que povoam de forma preconceituosa esse fenômeno, tais como: como o cego faz para paquerar ? O desenvolvimento sexual da pessoa com deficiência visual é igual ao das pessoas sem deficiência ? É verdade que os cegos são bons amantes, pela maior sensibilidade tátil que possuem ?
Frente a essa lacuna de informações e conhecimento sobre sexualidade e deficiência visual, em parceria com a ong ECOS – Comunicação e Sexualidade – desenvolvemos um projeto chamado Sexualidade e Deficiência Visual: uma proposta de educação inclusiva, um material educativo que tem como finalidade principal oferecer uma metodologia de trabalho para que educadores e profissionais das mais diversas áreas do conhecimento abordem de forma inclusiva e aberta pontos importantes sobre sexualidade e deficiência visual, ou seja, inserir no contexto social e discutir a sexualidade de jovens e adolescentes com deficiência visual como um aspecto fundamental de seu desenvolvimento humano.
Compartilhamos alguns pontos deste trabalho que consideramos fundamentais para a compreensão da sexualidade da pessoa com deficiência visual e sobre a importância da educação inclusiva em abordar o tema sexualidade.
A pessoa com deficiência visual tem um desenvolvimento sexual como qualquer outro ser-humano. A deficiência visual não acarreta qualquer prejuízo nas funções corporais e hormonais, nem influi nas transformações comuns na puberdade e adolescência. Ela tem capacidade e habilidade para desenvolver a seu modo o ciclo afetivo, sexual e relacional comum a todas as pessoas: descobrir e viver seus desejos, conhecer o que lhe dá prazer e como, namorar, transar, casar.
Como sabemos que o sentido da visão é uma das principais fontes de captação de informações do ambiente, muitas vezes o desafio para pessoa com deficiência visual é encontrar estratégias para paquerar ou compreender mensagens não verbais, ou de expressões corporais e faciais, tão presentes no momento de sedução… aproximação e desejo por outra pessoa.
É muito importante considerar a vulnerabilidade de jovens e adolescentes com deficiência visual sobre informações acerca de sexualidade. Neste momento de experiências e descobertas esses jovens precisam ser contemplados para a vivência de uma sexualidade saudável e segura. Portanto é de fundamental importância considerar que a comunicação com esse público seja acessível e que contemple todo o tipo de adaptação necessária para que a informação chegue com clareza.
Em um programa de educação sexual, deve-se considerar a diversidade de jovens com deficiência visual, facilitando o conhecimento de métodos de prevenção de DST e gravidez, como camisinhas (masculina e feminina), DIU etc. principalmente por intermédio do tato, disponibilizar recursos/materiais educativos acessíveis em áudio ou braille, oferecer e garantir a audiodescrição em filmes que tratam a questão e estimular o jovem com deficiência visual a dar dicas de como o assunto pode ser abordado tendo em vista melhor compreensão e apreensão do tema.
Viver a sexualidade de forma segura e saudável e ter garantindo seus direitos sexuais e reprodutivas são condições básicas que precisam ser garantidas as pessoas com deficiência. Afinal, a partir do momento que trazemos à tona a discussão, contribuímos, para desconstruir crenças preconceituosas sobre a sexualidade de pessoas com deficiência.
